O Comboio chegou a Lagos há 90 anos
É sabido que o meio ferroviário revolucionou o quotidiano das populações, e que ao receio inicial provocado por aquelas soberbas e ruidosas locomotivas seguiu-se o enorme fascínio pela sua potência e velocidade. O comboio assumiu rapidamente um lugar no imaginário das crianças e dos adultos substituindo as carruagens e os cavalos de outrora. Por toda a parte onde surgiu, o comboio integrou-se no quotidiano dos povos encurtando grandemente as distâncias e reduzindo o tamanho do mundo. Em Portugal não foi diferente, a ferrovia uniu as comunidades e levou o progresso a todos os distritos do país. Durante mais de um século o comboio assumiu-se como símbolo de evolução e os caminhos-de-ferro como paradigma da organização e da mecanização.

Da inauguração, propriamente dita, deram conta os jornais coevos, como a Ilustração Portuguesa, de cobertura nacional, em cujas páginas se lia em Agosto desse ano: «Inaugurou-se o ramal do caminho-de-ferro de Portimão a Lagos. Finalmente, a antiga e laboriosa cidade algarvia, debruçada graciosamente na mais linda baía que possuímos, viu realizada a sua maior aspiração de tantos anos. Por isso a festa da inauguração atingiu um entusiasmo delirante. Uma nova e próspera fase de vida comercial e industrial vai abrir-se para a florescente Lacobriga dos romanos, florescente nesse tempo pela agricultura, pela indústria e pelas grandes pescarias. Ligada com o resto do país pelo caminho-de-ferro, Lagos reconquistará dentro em poucos anos o honroso título de notável que lhe foi justamente outorgado num alvará de 1535.»
Acerca das transformações operadas na vida da cidade, e para além do transporte de pessoas que já de si constituiu um progresso incontestável, o pescado que demandava o porto de Lagos passou a ser expedido para Lisboa e outros destinos através do comboio, onde seguia encaixotado e acondicionado em gelo. Para além destes aspectos pragmáticos de cariz económico e social, o comboio também teve impacto no sentimento dos lacobrigenses. Hoje, como então, ainda se vive a magia do cumprimento que o comboio ou a automotora dispensam à cidade anunciando a sua chegada através do longo apito que, no nosso imaginário, mescla os tempos da locomotiva a vapor com o da transitória máquina diesel-eléctrica; especialmente nos dias em que o vento Levante empurra o sinal sonoro para a urbe disposta em anfiteatro, espectadora privilegiada desse nostálgico acontecimento que é a chegada do comboio.


![]() |
Cocheiras e placa giratória |
Se, pela sua peculiaridade, a viagem de comboio suscita sensações especiais também é verdade que muitos dos percursos do caminho-de-ferro, atravessando paisagens de deslumbrante beleza natural, ampliam essas sensações tornando uma simples viagem numa experiência gratificante que frequentemente desejamos repetir. Assim é na aproximação ao destino final ocidental da Linha do Sul. Nos três quilómetros de praia percorridos pelo comboio, o passageiro obriga-se a vir à janela, sobretudo quando chega de madrugada. E da janelinha de guilhotina invertida, ao som ritmado e inconfundível das rodas férreas nas junções dos carris, extasia-se perante a paisagem do sol reflectido nas águas da baía e da sua luz que reverbera as cores e matizes das rochas a poente, desse cenário deslumbrante que é a nossa Costa D’Oiro.
Infelizmente, em Portugal, tal como em muitos outros pontos do globo, o meio ferroviário foi perdendo terreno para os transportes rodoviários, numa opção pouco inteligente e seguramente mais lesiva para o ambiente, e para a comodidade e a economia das populações. Antes de Abril de 1974 chegou a equacionar-se a modernização da via-férrea do Algarve, alargando-a a via dupla electrificada. Tais projectos não passaram de expectativas goradas, devoradas por esse imperativo de remeter para novas vias de betão e alcatrão o transporte colectivo de pessoas e bens. Hoje, o comboio ainda chega a Lagos. Que assim se mantenha por muitos anos. Talvez um dia veja reconhecida a sua importância e o seu real valor; e que dessa constatação surja um verdadeiro renascimento do meio ferroviário que explore as suas enormes potencialidades.
"...a máquina, escusado será dizer, das mais primitivas (parecia um enorme garrafão) não tinha força suficiente para puxar todas as carruagens que lhe atrelaram e fora-as largando pelo caminho. Algumas, de convidados, nos Olivais. O vagon do Cardeal Patriarca e do Cabido ficou em Sacavém; mais um recheado de ilustres personalidades ficou ao desamparo na Póvoa. Creio que, se o Carregado fosse mais longe, chegava a máquina sozinha ou só parte dela."
in Caminhos de Ferro Portugueses - Eng. Francisco de Quadros Abragão.
Comentários
Acontece que fiz a viagem de Lagos para Portimão (para ir ao Liceu), durante um ano!
na 4ª feira, 30 de julho, 10.27, isso não acontecerá.
belo trabalho que aqui nos deixou francisco.