A revolução, ou estes gajos não se entendem nem à paulada, vou passear!

No outro dia quando a poeira assentou pude sair à rua, já não era a mesma de dois dias atrás, havia sorrisos que eu desconhecia e o ar era fresco e engraçado; há uns quinze dias, uma vizinha que era viúva, prostrou-se a gritos dilacerantes pela rua afora, houve comentários que previam que ia chorar para sempre: tinha-lhe morrido o filho na guerra. Não fora aquela coisa dos cravos a enfeitar G3's (diga-se de passagem uma mariquice quase poética) e aquela rua tinha ficado perpetuamente sobranceira àquela névoa de amargura.
Fui levado dias depois, pelo o meu pai, a ver uma manifestação (primeira e última) do dia 1º de Maio no mesmo sítio onde o Américo Tomás tinha “abençoado” a populaça. Estava tudo com ar de desconfiado, podiam andar bufos por lá e a coisa ainda não estava de pedra e cal; mas lembro-me que para o fim do dia toda a gente espetou dois dedos ao céu (como a meter o dedo nu cu da outra senhora) aos gritos de “MFA” e “O Povo Unido...”.
Antes deste dia, pelos meus anos, a família juntava-se toda lá em casa para contar histórias: tios e primos estavam em África espalhados pela tropa toda, e a coisa dava aventuras emocionantes por terra, ar e mar em que as partes sangrentas eram estrategicamente omitidas. Nos aniversários seguintes todos guerreavam “política”, a guerra é coisa menos barulhenta e também mais pacífica; nunca mais tiveram denominador comum.
Um desalento.
Comecei a dedicar-me a coisas mais essenciais: ir à praia, para tal bastava uma toalha a tiracolo e uns chinelos; sempre que havia oportunidade, ajudava os pescadores a descarregar o peixe, enchendo cestas de vime que eram atiradas e descarregadas no cais (coisas de camarada); a minha falta de jeito para a bola (aliás imortalizada pelo poeta Vieira Calado no livro “Estórias de Lagos & Arredores”, em prosa) deixava-me com outras opções, vagueava por todo o lado quando me apetecia, em absoluta contemplação da Criação (o mais próximo que cheguei de uma verdadeira experiência religiosa); de vez em quando parava na carpintaria do meu pai para construir objectos de madeira (espadas e coisas do tipo, para a malta brincar lá na rua). Destes dias guardo as memórias mais agradáveis, também eu tinha conseguido a liberdade, mas à minha maneira.
Fui levado dias depois, pelo o meu pai, a ver uma manifestação (primeira e última) do dia 1º de Maio no mesmo sítio onde o Américo Tomás tinha “abençoado” a populaça. Estava tudo com ar de desconfiado, podiam andar bufos por lá e a coisa ainda não estava de pedra e cal; mas lembro-me que para o fim do dia toda a gente espetou dois dedos ao céu (como a meter o dedo nu cu da outra senhora) aos gritos de “MFA” e “O Povo Unido...”.
Antes deste dia, pelos meus anos, a família juntava-se toda lá em casa para contar histórias: tios e primos estavam em África espalhados pela tropa toda, e a coisa dava aventuras emocionantes por terra, ar e mar em que as partes sangrentas eram estrategicamente omitidas. Nos aniversários seguintes todos guerreavam “política”, a guerra é coisa menos barulhenta e também mais pacífica; nunca mais tiveram denominador comum.
Um desalento.
Comecei a dedicar-me a coisas mais essenciais: ir à praia, para tal bastava uma toalha a tiracolo e uns chinelos; sempre que havia oportunidade, ajudava os pescadores a descarregar o peixe, enchendo cestas de vime que eram atiradas e descarregadas no cais (coisas de camarada); a minha falta de jeito para a bola (aliás imortalizada pelo poeta Vieira Calado no livro “Estórias de Lagos & Arredores”, em prosa) deixava-me com outras opções, vagueava por todo o lado quando me apetecia, em absoluta contemplação da Criação (o mais próximo que cheguei de uma verdadeira experiência religiosa); de vez em quando parava na carpintaria do meu pai para construir objectos de madeira (espadas e coisas do tipo, para a malta brincar lá na rua). Destes dias guardo as memórias mais agradáveis, também eu tinha conseguido a liberdade, mas à minha maneira.
Comentários
Eram cerca das dez horas.
Um amigo chegou até mim,
excitadíssimo e disse:
Houve qualquer coisa em Portugal!
Encontrado alguém que tinha um rádio,
saímos das instalações (onde não se ouvia nada) e fomos para os jardins do exterior.
Com o ouvido colado ao rádio,
percebia-se (mal) que qualquer coisa tinha acontecido em Lisboa.
O rádio não apanhava quase nada.
Apenas se ouvia-se indistintamente falar de tropas... e pouco mais.
Era inútil.
Por mero acaso, à noite, o José Mário Branco cantava, na Faculdade, (antecipadamente contratado,
porque era a festa anual do Departamento de Português.
Antes de cantar informou o que se passava em Lisboa.
Disse mais ou menos isto:
Houve um golpe de estado, em Portugal, feito por militares.
Não vai acontecer nada.
Vai ficar tudo igual!