Xávega e Chinchorro

Xávega e Chinchorro
duas artes diferentes


Em Julho de 2004 realizei uma reportagem fotográfica à faina da Xávega, na Meia Praia. Na altura alguém terá dito que se tratava da arte do Chinchorro, e assim identifiquei as fotos até que, algum tempo depois, percebi que a identificação estava errada e que se tratava, sim, da arte da xávega.

Há poucos dias, em conversa com amigos mais velhos, um deles referia que se lembrava muito bem de, nos seus tempos de juventude, em finais dos anos 40 do séc. XX, ver as artes de chinchorro da Meia Praia na sua faina de pesca, tal como hoje acontece.

Ora, se existiu alguma arte do chinchorro naquela praia não o sei dizer, e não me parece improvável, mas a arte que ali labora actualmente, e o faz há muitos anos, é a xávega. Também não me parece improvável que em meados do século passado as gentes de Lagos, mormente as pessoas não ligadas à pesca, identificassem erradamente, como chinchorro, as artes da xávega ali existentes.

Para esclarecer as diferenças entre uma e outra, recorro aos conhecimentos de gente autorizada na matéria, nomeadamente Fernando Rebordão, Gaspar Albino e Miguel Carneiro, revelando de imediato que as principais diferenças entre as artes de pesca chinchorro e xávega respeitam à dimensão e a aspectos particulares da rede. A rede do chinchorro é muito menor do que a xávega embora sejam ambas artes de arrastar para terra. O chinchorro é constituído por uma rede de malha quadrangular, de dimensões constantes e em forma de funil; a xávega, também uma rede de malha quadrandular, é composta por duas mangas e um saco com malhagens diferentes; nas mangas a malha é mais larga, mais clara, junto ao calão, e vai diminuindo até ao saco, tornando-se mais expessa; no saco a malhagem aumenta do fundo para a boca.

Gaspar Albino, citando Domingos José de Castro, diz-nos: «A Arte de Xávega, do árabe xabaka, é um aparelho de pesca de arrasto demersal que, na nossa costa, é lançado pelo barco de mar. Partindo da praia, desloca-se até à distância consentida pelo aparelho e à praia regressa, iniciando-se, então, o arrasto propriamente dito. A xávega é, portanto, uma arte envolvente de arrastar pelo fundo e alar para a praia, constando o aparelho, ou arte, de um saco prolongado por duas asas ou mangas, nos extremos das quais se amarram os cabos de alagem ou calas. É constituída por um extenso pano de rede de malha quadrangular, interceptado, ao centro, por um saco do mesmo género: o espaço da intercepção corresponde à boca do saco e designa-se pelo nome de bocada: às duas fracções do pano, que se desenvolvem para cada lado desta, dá-se o nome de mangas, que, desde a junção à bocada, decrescem em largura até à extremidade oposta, que tem o nome de calão, ponta da manga onde se prendem as calas, que são os cabos de alagem deste sistema de aparelho de pesca»

Continuando a ler Gaspar Albino, sobre a xávega: «O saco, de forma trapezoidal, andava pelos 70 metros de circunferência, 40 de profundidade e 8 de largura, na cuada ou fundo do saco. A malhagem era, somente, de 1cm, na cuada, até atingir 6,5cm, na bocada, que era guarnecida, na sua parte superior, por uma cortiçada – flutuadores de cortiça – e, na sua parte inferior, era lastrada por tijolos. Cada uma das mangas tinha 230metros de comprimento, começando por uma largura de 25metros, na parte do saco, e decrescendo até 20metros no calão. As mangas eram constituídas por panos de fio singelo de malha, que só era dobrado junto à bocada. Ao longo das mangas, pela parte de cima e por um e outro lados, corriam, paralelamente, duas linhas, a uma distância de 35cm e guarnecidas com pandas, bocados de cortiça que suspendiam o aparelho a uma altura de água que nunca deveria exceder a da bocada. Pelo lado de baixo, mais duas linhas guarnecidas de discos de barro cozido – pandulhos ou bolos – lastravam as mangas, para que o aparelho arrastasse mesmo pelo fundo. Nas extremidades de cada uma das mangas, eram presos por uma corda barris estanques, chamados balizas ou arinques. Um outro barril – o clime – era colocado na cuada do saco. (…) O aparelho era feito de fio de linho que era, depois, posto numa infusão de casca de salgueiro, ficando com uma cor acastanhada, para não assustar o peixe. As mangas, para além do encasque, eram passadas por um banho de alcatrão. As calas de alar o aparelho podiam ser de linho ou de esparto e eram divididas em rolos, partes que se emendavam umas nas outras. Estes rolos chamavam-se cordas, quando eram singelos; cabos, quando eram dobrados; e orlas, quando eram triplos. O número de rolos, que constituíam as calas, variava de praia para praia, podendo ir de 160 rolos de 60metros cada, até 29 rolos de 99 metros cada. Isto define que os barcos de mar se poderiam afastar da praia, de 2.800 até 9.600metros, para lançar o aparelho de pesca. As calas eram transportadas, do palheiro da praia até ao barco, rolo a rolo, por vários grupos de 2 homens munidos de um bordão, colocado ao ombro. A rede era levada em procissão pelos tripulantes, colocando-se, no barco, primeiro, a manga inicial, depois, o saco, seguido da segunda manga; por fim, colocava-se, a bordo, o reçoeiro – isto é: a cala de recolha da arte para terra.»

A pesca com xávega não é herança árabe exclusiva de Portugal, pratica-se no sul de Itália, onde tem o nome de “sciabica”; na catalunha denomina-se “jabega”, e na galiza “xabega”. O enquadramento legal desta actividade piscatória assenta na Portaria n.º 1102-F/2000 de 22 de Novembro, que estabelece que a Pesca por Arte Envolvente-Arrastante só pode ser exercida com a chamada arte de xávega, arte de alar para terra.







Fontes Consultadas:
ALBINO, Gaspar  - A ARTE DA XÁVEGA http://www.jf-quiaios.pt/home.php?t=ct&c=41
REBORDÃO, R. F. -  Classificação de artes e métodos de pesca. Instituto de Investigação das Pescas e do Mar. Publicações avulsas do IPIMAR, Lisboa.
CASTELO, Francisco - Fotos da Xávega na Meia Praia


Comentários

Unknown disse…
Pelas fotos posso dizer que é Arte Xávega. Aqui na praia da Vieira também pescam assim com esses barcos e com as redes de cerco e arrasto.
Até 1980 a venda do pescado era feita na areia.
francisco disse…
Obrigado Luís Coelho, mas eu não tenho dúvida alguma de que esta arte é a Xávega. Tenho dúvidas é acerca da eventual confusão desta arte com o Chinchorro, por parte de alguns conterrâneos. Como também tenho dúvidas, porque não tenho provas, acerca da existência do Chinchorro nesta praia em tempos idos. Saúde.
Cipriano Filipe disse…
Sou de Quarteira e em pequeno lembro-me de assistir e participar no calar das artes cá na terra,que nessa altura se bem me recordo haviam quatro,dando uma delas origem ao actual Hotel Dom José que começou por ser uma taberna aproveitando o facto de haver no local muita gente concentrada.Gostaria de saber do contacto do responsável da arte da Meia Praia,pode haver interessados em assistir a um lanço da referida arte.Obrigado.
Anónimo disse…
Hei-de perguntar ao meu pai , que conheceu bem a Meia Praia dos tempos idos. DE continua, apaixonado pela Meia Praia e pela arte xávega. Ei-lo, na 2.ª foto. Obrigada Francisco
Teresa Mendes

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