Carro de cana

Era uma rua feita de barro e terra.
Pedras rolantes, ladeira abaixo.
Era uma rua com trilhos serpenteantes, feitos dos nossos pés descalços.
Era uma rua de brincar, onde se vivia.
Com a sirene do peixe soando ao meio-dia e o cheiro da sardinha fresca nos dedos delas e as tamancas repletas de escamas brilhantes.
Era uma rua feita de barro e terra e mercearias e rebuçados de mel.
Era uma rua de brincar, onde se vivia.
Na rua ao lado vivia o mar, na babuja do estaleiro.
Eles, no sol da tarde, esticando as redes na avenida desenleando limos, de navete tecendo buracos e atirando à malta as bóias velhas, quando a cortiça delas já morria.
A alma dos carrinhos de cana! Era isso que a malta queria!
A alma dos carrinhos de cana! Era isso que a malta queria!
Os “pneus”, encaixados com arames, fortes e folgados, a dar “direcção”.
O “volante”, ajustado no nó de crescimento da cana, permitindo curvas.
E descíamos ladeira abaixo serpenteando, trilhando, voando, conduzindo o carro mais importante do mundo!
E descíamos ladeira abaixo serpenteando, trilhando, voando, conduzindo o carro mais importante do mundo!
Era uma rua feita de barro e terra e mercearias e rebuçados de mel e gente com cheiro a sardinha fresca.
Era uma rua de brincar, onde se vivia.
(Já foi publicado aqui)
Comentários
Abrç
Belos tempos.
Já a minha mãe, quando lhe mostrei o desenho, disse: "Lembro-me disso, mas sem essa flor em cima"!
Foi coisa de "menina", ao fazer o desenho:)
É um miúdo muito giro e o carrinho uma delícia.
Maria