sábado, março 27, 2010

mulheres de Lagos

   São avulsas. Vão ao mercado, usam trança se o cabelo lhes dá, ou peruca se lhes for necessário, e cada uma delas pinta a vida com as cores das tintas, ou com sorrisos, ou usa essa cor em vestidos, numas mais soltos do que em outras, e lêem livros nas esplanadas onde conversam ou se recolhem. E gostam de passear sozinhas tanto como de ficar conversando pela noite dentro com uma amiga ou num bar em volta de uns copos. Não deram nas vistas senão o necessário para que se sentissem vivas: intervenientes o bastante porque cada umas delas nem podia fechar os olhos, que o coração lhes falava mais alto.
   Mulheres sem mais de especial que terem sido isso mesmo, cem por cento.
   E se hoje assim as falo, é apenas porque me faz espécie que não sejam lembradas na cidade em que nasceram ou que tomaram como sua e tanto amavam.
   Nem uma palavra de qualquer uma das quatro. Uma palavra que dissesse recolheu-se à morada de Deus uma amiga de Lagos. Ou, mais simplesmente, Lagos não esquece que ela cá viveu.
   Por mim, soltaria uma pomba branca, ou que fosse uma de outra cor, no propósito de lembrar que morreu, discreta e sofrida…e viria o nome dela num papelinho preso numa pata da ave.
   Melhor ainda, que se fizesse dito, como era antigamente, uma arruaça, que alguém gritasse em tom de oração: muito obrigada minha amiga, e dizendo o nome todos rezariam por mais uma mulher que partia, uma mulher que ao sábado iria ao mercado e que, se tocava piano ou fazia versos, ou desenhos, era no recolhimento da sua intimidade.
   Eu vejo-as partirem, discretas, cheias de vagares nos preparos da viagem, e fico-me pensando, se nós, os que com ela convivemos e fomos bafejados pela sorte de lhes conhecer os dotes, não devemos fazer-lhes homenagem, mais não sendo conversando delas, que sejam Irenes, Cristinas, Cecílias ou Milenas.
   A cada uma  aqui o meu muito obrigada por terem tocado o meu caminho nesta terra de Lagos, em cujo nome, ouso agradecer-vos.
   Bem hajam!

4 comentários:

Mena G disse...

Junto-me à tua homenagem.
Há mulheres neste texto que me pintaram em arco-íris o preto e branco de dias passados.
E,a esta última, agradeço-lhe o ter-me tocado um dia.
Com ela aprendi que ser distraída, esquecida , despassarada... é inevitável!
Mas pode tornar-se numa arte,se bem disfarçada!

Valvesta disse...

Deixo um abraço de carinho as amigas, e digo que me comove a perda de pessoas tão queridas;
Verdadeiros amigos nunca partem, ficam adormecidos em nossos corações.
O tempo fará seu milagre, tirando a dor e trazendo as lembranças boas, consolo e força só Deus pode nos dá. Um abraço com sinceridade.

francisco disse...

Naa... na tou para encontrar papelinhos no arroz de pombo/a.

deodato inácio dos santos disse...

coisas logram percorrer todos os circulos que compõem a cidade e que de súbito se tornam comuns como se fossem um todo. nesse momento acontece Cidade. passado esse momento voltam a ser circulos que se cruzam que se tocam que se ignoram que se invejam que se guerreiam - como em todas as cidades do mundo humanas ou não humanas - ou formados por individuos com os mesmos interesses - ou com o único de não estarem sós - ou por individuos sós, não admitidos. rapidamente se refaz o normal, a não existência de Cidade: diz-se Cidade na ânsia de provar a sua existência ou para desafiar a que ela passe a existir.

na magreza de conceitos e na repetição de exíguos elementos - até mesmo por isso - uma antiga canção alentejana caida em desuso relembra a insuportável e inaceitável essência das coisas:

Ai solidão ai dão ai dão
cá por mim por sim por não
e vem a morte e leva a gente
quem não há de ter paixão

E quem não há de ter paixão
quem não há de paixão ter
e vem a morte e leva a gente
solidão até morrer.

autor anónimo como de regra

muitas portas tem Lagos, e a única efectivamente aberta é a do Postigo.( há muito fisicamente demolida).

cada pessoa é uma porta meio-aberta meio-fechada que se vai definitivamente fechando.( para depois escancarar-se).

portas se abrem entre as palavras. quando por inaptidão ou distracção as não deixamos, elas forçam o espaço como os tentáculos do polvo entre os dentes.(assados, os tentáculos).

é tendo como público-alvo o segmento masculino sofisticado das novas classes emergentes, conhecedor das elucubrações de Leopold von Sacher-Masoch através da Playboy, que os supermercados estão a promover a galinha congelada.(com tinto do Dão, ai dão ai dão).